18 de outubro de 2007
mas há verdadeiros ciclones cá dentro e aí dentro...
andamos todos com a cabeça às voltas e não saimos do mesmo sitio...
andamos todos com os corpos à volta e não saimos do circuito do metro
(Deus me livre, apanhar o autocarro)
o outono chegou, o vento chegou e nós ainda não saimos de cá... de nós...
mas está para chegar...
a grande obra começa!
2 de junho de 2007
"Sermão a uma Assembleia de Onanistas Anónimos"
O Espírito Santo reside
nos preciosos fluidos
dos nossos órgãos genitais.
Inspira-nos a vencer o pecado
mortal da preguiça
a apressar os nossos passos
e a retesar os nossos membros
- os fluidos enchem-nos de curiosidade
de coragem para estender os braços
de audácia para saltarmos para o desconhecido.
Como se ergue o pénis do homem
assim nos erguemos nós
acima da nossa indiferença
para com os estranhos.
Aprendemos a ser tolerantes
a preocupar-nos, a amar
às vezes até a compreender
na expectativa o prazer:
as mulheres abrem-se e os homens
inundam
coxas e pernas ungidas de suor
e seja qual for a posição que tenhamos
é com os vivos que aprendemos o jeito de viver.
2.
À guisa de fantasia imaginemos duas mulheres
uma, um pouco lésbica, que debica
nas profundezas do fosso da outra
cuja voz se ergue ou murmura
e as nádegas da primeira, emudecida, balançam
quando recua para respirar
e mergulhar de novo
- e só a penetram quando ela explode.
Ou imaginem a mais deslumbrante orgia
talhada à medida do vosso gosto mais singular.
Por muito rico que seja
aquilo que se imagina na solidão
trai uma imaginação medíocre
sobre o que é a felicidade de um abraço
ou de um beijo.
Quando se é ao mesmo tempo aquele que dá
e o que sente o prazer
fica-se sem forças nas pernas
para correr atrás de companhia.
As ondas do prazer solitário
transportam-nos para ilhas desertas.
3.
Dizem que os fortes não precisam de ninguém
nem mesmo para o prazer
conhecem o modo mais rápido, mais seguro
e mais absolutamente certo de ganhar.
Os violadores jogam com os seus ferrões;
se as suas amantes são imaginárias
que importa que as vítimas sejam reais?
Eu digo que os fortes são pacientes
esperam, suplicam,
preferem arrostar com a rejeição
o mau humor, as discussões
e as mágoas do amor
a voarem sozinhos,
apostam na companhia
e chegam a confiar as suas partes mais sensíveis
aos cuidados de um amigo."
24 de maio de 2007
...mas também ninguém avisou que ia ser assim tão dificil...
eu só queria sair da caixa do correio
merda!
21 de maio de 2007
"Elogio de amor"
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente.O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso in Expresso