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2 de dezembro de 2007

Estados febris




Vocês sabem que as últimas semanas têm sido lixadas. Hoje, no fim de mais uma caixa de ben-u-ron, dei por mim a questionar esta relação. Se daqui para a frente vos pedir para me chamarem Charlton Eston fica comprovado que há de facto uma relação que merece ser aqui explicada!

7 de junho de 2007

A lei da rotatividade

" O que é que estás aqui a fazer? Não estiveste aqui só há seis anos? Já tiveste a tua oportunidade pá! Não correu bem? Azar, eu sou mesmo assim. Tenta voltar noutro dia pode ser que esteja menos gente, mas não prometo nada...Tenho de dar atenção a todos sua egoísta de merda. Se fazes favor vai lá para o fim da fila e espera novamente pela tua vez! Com alguma sorte, se fores uma boa menina, talvez ainda dê para ser nesta vida..."

Sr. Eleutério (funcionário responsável por encher a gavetinha da felicidade)

6 de junho de 2007

...you brought home for my birthday a venereal disease...

Requisitos para um blog como deve ser, em 5749 faceis lições:

- clemencia (fig.1)
- frangos da guia (fig. 2)
-ovos mexidos
-doenças com nomes pomposos
-um bidé aqui e ali (dá aquele toque pós-moderno)
-vacas loucas
-só vacas
-só loucas
-miudos de frango
-omelletes
-dicionários de lingua portuguesa
-gatos escaldados (fig. 3)
-escaldões
-anarquia
-c*na fria
-sangria
-divã
-ter um grande membro
-quem tem prostata tem medo (fig.4)
-pimenta
-perninhas de rã




-sal

Fig. 1


Fig.2
Fig.3
Fig.4


Creutzfeldt-Jakob!! Santinho...

2 de junho de 2007

"Sermão a uma Assembleia de Onanistas Anónimos"

"1.
O Espírito Santo reside
nos preciosos fluidos
dos nossos órgãos genitais.
Inspira-nos a vencer o pecado
mortal da preguiça
a apressar os nossos passos
e a retesar os nossos membros
- os fluidos enchem-nos de curiosidade
de coragem para estender os braços
de audácia para saltarmos para o desconhecido.
Como se ergue o pénis do homem
assim nos erguemos nós
acima da nossa indiferença
para com os estranhos.
Aprendemos a ser tolerantes
a preocupar-nos, a amar
às vezes até a compreender
na expectativa o prazer:
as mulheres abrem-se e os homens
inundam
coxas e pernas ungidas de suor
e seja qual for a posição que tenhamos
é com os vivos que aprendemos o jeito de viver.

2.
À guisa de fantasia imaginemos duas mulheres
uma, um pouco lésbica, que debica
nas profundezas do fosso da outra
cuja voz se ergue ou murmura
e as nádegas da primeira, emudecida, balançam
quando recua para respirar
e mergulhar de novo
- e só a penetram quando ela explode.
Ou imaginem a mais deslumbrante orgia
talhada à medida do vosso gosto mais singular.
Por muito rico que seja
aquilo que se imagina na solidão
trai uma imaginação medíocre
sobre o que é a felicidade de um abraço
ou de um beijo.

Quando se é ao mesmo tempo aquele que dá
e o que sente o prazer
fica-se sem forças nas pernas
para correr atrás de companhia.
As ondas do prazer solitário
transportam-nos para ilhas desertas.

3.
Dizem que os fortes não precisam de ninguém
nem mesmo para o prazer
conhecem o modo mais rápido, mais seguro
e mais absolutamente certo de ganhar.
Os violadores jogam com os seus ferrões;
se as suas amantes são imaginárias
que importa que as vítimas sejam reais?
Eu digo que os fortes são pacientes
esperam, suplicam,
preferem arrostar com a rejeição
o mau humor, as discussões
e as mágoas do amor
a voarem sozinhos,
apostam na companhia
e chegam a confiar as suas partes mais sensíveis
aos cuidados de um amigo."

Stephen Vizinczey, In Praise of Older Women

24 de maio de 2007

...ninguém disse que era fácil...













...mas também ninguém avisou que ia ser assim tão dificil...

eu só queria sair da caixa do correio
merda!

22 de maio de 2007

"Ressaca Para Uma Autobiografia"

"Permaneço deitado, ignoro o dia, não me mexo, recuso-me a pensar. Durmo como se nunca mais acordasse, e ao acordar já é novamente noite. Como abundantemente, fumo muitos cigarros e bebo pelo menos meio litro de café.
Mas, apesar de tudo, e com a prática de muitas ressacas, nem sempre consigo evitar a dor provocada por essa outra ressaca: a ressaca mental.
Sempre bebi em quantidade, violentamente, para perder a noção de mundo, e do mundo. Nunca bebi por paixão, nem por desgosto de amor, não, nunca bebi dramaticamente. E no dia seguinte a ter bebido muito, é como se os sentidos e a memória tivessem sido passados a esfregona e lixívia.
E dos sentidos surgem então sensações estranhas. Por exemplo, um órgão qualquer desata a arder, ou perco a visão - cego por instantes e sou obrigado a tactear-me para me certificar de que existo.
Nada disto é agradável ou desagradável, é um outro estado de singular lucidez que pode prolongar-se horas a fio, entre uma espécie de escuridão primordial e a fulguração dum tempo ainda por vir, ou já eterno.
Fico assim, perdido no fundo de mim mesmo, sem nome, sem olhar para o que me rodeia, sem corpo que me transporte, sem pensamentos.
Quanto à memória, é terrível. Umas vezes vai buscar imagens distantes de acontecimentos que, em geral, ainda virão a suceder. Outras, pura e simplesmente não há memória de nada. Um pouco como se eu começasse a ser a cada fracção de segundo, e levo um tempo infinito, desumano, para erguer de novo, peça a peça, o que sou.
A embriaguez é um momento de vida incendiada, ou suspensa, e a ressaca um tempo de lenta e demorada reconciliação com o mundo, e comigo mesmo.
Mas, um dia, tenho a certeza, não terei forças para me reconciliar com o mundo, nem vontade de regressar de onde estiver.
Continuarei a beber ininterruptamente e não haverá mais ressaca, nem dor.

Seduz-me a ideia de vir a morar num corpo que já não sente, etílico talvez, transparente, e com uma leveza de cinzas."

Al Berto, O Anjo Mudo

24 de abril de 2007

Da minha janela e outras previsões

Da minha janela não vejo o horizonte. Da minha janela vejo o vermelho quadriculado do prédio vizinho e um bocadinho de céu, cinzento. Tenho de me inclinar para ver e ponho o céu cinzento numa posição desconfortável. Há dias caí da janela. Durante a queda vi que tem partes azuis, sim, o céu tem dias azuis! Seria bom se o vermelho quadriculado do prédio vizinho não existisse e, já agora, o vizinho também porque sempre que sai à rua começa a chover como se não houvesse amanhã. É uma daquelas pessoas que influencia o estado do tempo de tal forma que o Instituto Português de Meteorologia e Geofísica tem um acordo com ele para que não lhes foda as previsões. Hoje não vou ver o bocadinho de céu, o possível da minha janela. Não me apetece esticar, dói-me o pescoço ou outras desculpinhas...

16 de março de 2007

O Adeus

"Que sentimento é esse que temos quando vamos de carro e nos afastamos das pessoas e elas vão diminuindo de tamanho na planície até vermos as suas manchas dispersar? É o mundo demasiado grande a pesar-nos, é o adeus."

Jack Kerouac, On The Road

12 de março de 2007

Efémero

Limpei cuidadosamente o pó acumulado nos últimos meses ou anos. Aspirei o chão até os tacos de madeira se desprenderem, dei-lhes a simetria que mais me convinha. Obriguei os cd’s à ordem alfabética, tal como os livros, aos quais ainda arranquei páginas e dei as mesmas dimensões após confronto com uma faca. Na pausa, abri um pacote de m&m’s e separei-os por cores: os vermelhos, os amarelos, os verdes….olhei para eles, não comi. Voltei para o armário da roupa e para as gavetas, o quarto meticulosamente arrumado, organizado por cores, os vincos exactamente nos mesmos locais, peça a peça.
Pensei fazer um bolo. Separei as gemas das claras, mas ultimamente nunca consigo misturar os outros ingredientes, olho simplesmente para cada um deles nos seus recipientes. Acabo sempre com as gemas e as claras…gosto de separar os ovos, mas depois não faço nada deles, acabam como o resto e acabam comigo. Já nem os como mexidos, não suporto a ideia de não perceber onde está cada parte, no máximo estrelados. Tudo onde deve estar.
Agora, empoeiram-se toques, palavras e beijos que me dizes ao ouvido, acumulam-se no quarto. O aspirador cospe o que lhe apetece, os m&m’s baralhados, o armário e as gavetas voltam ao de sempre, cd’s e livros empilham-se em cima da roupa suja e limpa, já consigo fazer bolos e mexer ovos e não sei se isso é bom ou mau…

2 de março de 2007

Movimentos

Robert Frank, "US 285 New Mexico", 1955

Sempre estive parada e nunca me encontrei. Andei por sítios, não me mexi, não transumei. Agora também não sei onde ando, embora me sinta mais perto. Fiquei parada muitooooo tempooooo, mas achava que era feliz, fui feliz, a sério que sim, até deixar de o ser, até tudo parecer estático, ficar estático, morrer.
Sempre me apeteceu matar a tradição, a tradição é uma coisa que me enoja, é a pessoa de uma velha beata. O certo seria colocá-la dentro da ironia de um microondas e esperar que toda a agitação transformasse a velha beata numa grande puta (no fundo todos sabemos que as beatas são umas grandes fornicadoras de padres).
Matei um dado adquirido e sinto-me bem por isso. Para quê dar nomes às coisas? Elas são, simplesmente. Insistimos em dar-lhes nomes e deixamos que percam o sentido, ficamos demasiado tempo a perguntar-nos o que são e o que significam. Enquanto isso não vivemos, perdemos a intuição do tempo, deixamos que fujam. Nunca vou encontrar o que procuro, mas ao menos posso ir passando por mim numa e noutra estrada, lembrar-me de quem fui e felicitar-me pelas novas rugas. Essencial é não parar.

P.S. Não se preocupem, eventualmente voltarei ao normal.